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A “Des-higienização" da Cruz

Imagem retirada de http://arquidioceserp.org.br/?pag=noticias_ver&codigo=2416

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Com o emprego do neologismo “des-higienizar”, o que se pretende é aguçar a curiosidade, de maneira que conduza a uma reflexão profunda sobre o autêntico significado da cruz. É claro que não se quer oferecer uma reflexão sistemática, teórica e tecnicamente teológica em poucas linhas. O objetivo é simplesmente o de contribuir para o fortalecimento da espiritualidade pascal, já nos projetando para dentro do coração do ciclo litúrgico, ou seja, a Semana Santa. Então, o que se espera é que o evento da cruz de Jesus, bem refletido e celebrado, possa promover uma experiência pessoal de Ressurreição!

A cruz não é um objeto belo, nem física e nem simbolicamente falando! Historicamente, como bem o sabemos, era motivo de escândalo. A cruz era uma realidade brutal e dura, que devia ser combatida. Cícero já dizia que independentemente do que fosse, a cruz deveria ser mantida bem longe dos corpos, dos olhos e dos ouvidos dos cidadãos de Roma. Os primeiros cristãos, por causa da cruz, tinham de se defender das acusações de sacrílegos e anti-religiosos. Este era um objeto terrível demais! Para o espírito dos homens mais letrados, era motivo de zombaria. O grafite, com data provável do terceiro século, encontrado em uma das paredes do Palatino, traz crucificado um homem com cabeça de asno e a inscrição que diz: Alexamenos adora o seu deus! Portanto, a cruz era o motivo de vexame dos mais simples!

Mas, todo este caráter “horrendo” foi paulatimente abandonado, porque a cruz, gloriosamente coligada à Ressurreição, deixa de ser um objeto de repúdio e aos poucos se torna o grande símbolo das igrejas, das vitórias de guerra e do triunfo da fé. Passa, então, a ser comparada com uma rosa que não obstante a presença de seus espinhos, resplandece de beleza e exala o frescor de seu perfume. O aspecto áspero e hostil da cruz é amenizado e profilaticamente a cruz se torna cada vez mais agradável. Higienizada, a cruz passa a figurar perfeitamente como o símbolo da fé cristã.

Ao ganhar a medalhinha de seus alunos – que continha uma cruz e uma coruja –, em seu aniversário de 60 anos, Hegel dizia que era difícil carregar consigo uma cruz, já que a sua dureza e a sua crueza conseguem afrontar “o ser humano e o razoável”. Goethe, por sua vez, afirmara que uma cruz de honra é sempre algo agradável na vida, mas nenhuma pessoa sensata deveria se esforçar em desenterrar e erigir este deprimente madeiro de tortura, a coisa mais repulsiva debaixo do sol. Até mesmo Nietzsche, ainda que relutasse em vir a ser envolvido pela dinâmica do mistério divino, percebeu que o madeiro tinha certa profundidade, já que afirmara que houve apenas um cristão: aquele que fora morto na cruz! Assim, o que motiva as reflexões destes pensadores não é a cruz higienizada e purificada pela história dos triunfos cristãos; logo, não se trata de reflexões a partir daquela cruz do céu de Constantino e tampouco daquela do esplendor dos impérios das cristandades!

Papa Francisco, em Casa Santa Marta, na homilia da missa do dia 08 de abril de 2014, afirmou que a cruz não é somente um objeto de ornamento que devemos colocar nas igrejas, ou, sobre o altar. “O cristianismo é uma pessoa, uma pessoa erguida, na Cruz, uma pessoa que se aniquilou a si própria para nos salvar”. Deus se ergue juntamente com os pecados de toda a humanidade e “não se percebe o cristianismo sem se perceber esta humilhação profunda do Filho de Deus, que se humilhou a si próprio, fazendo-se servo até à morte de Cruz, para servir”.

Depois, em 12 de março de 2017, dirigindo-se à multidão em Praça São Pedro, o Papa torna a falar que a cruz não é uma mobília para a casa, e muito menos um adereço para o corpo, mas, a revelação de Deus, como o amor. Na cruz, Deus não se revela em um “rei poderoso e glorioso, mas um servo humilde e desarmado; não um senhor de grande riqueza, sinal de bênção, mas um homem pobre que não tem onde reclinar a cabeça; não um patriarca com numerosa descendência, mas solteiro sem casa e sem ninho. É realmente uma revelação de Deus de cabeça para baixo, e o sinal mais desconcertante desta contradição é a cruz. Mas, precisamente por meio da cruz, Jesus chegará à gloriosa ressurreição”.

A cruz deve, portanto, ser “des-higienizada”, para retornar ao seu sentido essencial, resgatando a identidade e a relevância de toda a nossa fé. A cruz purificada e higienizada não é a mesma que conduz à Ressurreição! A cruz verdadeira deve ser assumida em toda a complexidade de seu terror e sem nenhum retoque! Esta é a cruz, a qual Jesus dizia que deve ser tomada por aqueles que o querem seguir! Sim, esta cruz pesada é a única que deixa transparecer a carga real dos pecados da humanidade e, por isso, reclama pela nossa conversão. Esta cruz (e somente esta!) impele para o compromisso, porque permite ver, no rosto de cada pessoa que sofre, o sangue derramado para o resgate da humanidade. É desta cruz que vem aquele grito, que se une ao de cada pessoa desamparada e desconsolada: meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?(Sl 22,2)

Para o ateu, a cruz é o grande sinal da derrota de Deus. Deus morreu, logo a fé é uma grande loucura. A cruz perturba, questiona e elimina a fé do coração ateu. Entretanto, inversamente a cruz deve ser o início da nossa fé, porque é justamente ali onde morrem todas as forças e se esvaem quase todas as esperanças. No madeiro não há mais sinal de vitória, por isso é que se tem o início da atitude de quem acredita em algo muito maior; o Deus morto na cruz é a abertura plena para o Deus da Esperança. Por isso, a cruz deshigienizada é dinâmica e não estática como a cruz dos adornos e adereços. Ela é viva e, justamente por ser horrível, é que se faz capaz de articular nossa maneira de crer com a nossa maneira de agir.

Por fim, não tenhamos na cruz o fundamento para o nosso conformismo e a justificação de nossa apatia, que nos permite aceitar passivamente as durezas e “piadas da vida”. Sente-se conformado diante da cruz e aceita de braços cruzados a toda e qualquer injustiça, somente aquele que não mergulhou na profundidade do evento do mistério pascal e ainda contempla aquela cruz historicamente higienizada. A cruz não é o ponto de chegada, mas ao contrário, é o início de uma nova realidade, já que é sinônimo de radical transformação! Se fosse o ponto de chegada, seríamos necessariamente impelidos ao conformismo. Mas, a cruz deve nos despertar, nos interpelar, chamar a nossa atenção e nos obrigar a compreender o sentido autêntico de nossa fé, lançando-nos em frente, impelindo-nos à conversão pessoal e à transformação social.

Uma vez resgatada a cruz, em seu complexo significado, compreendemos melhor as palavras do Apóstolo dos gentios: “quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz do nosso Senhor, Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo” (Gl 6,14). Quiçá também nós façamos uma experiência de crucifixão com o mundo para que a Semana Santa seja a via litúrgica de renovação de nossa espiritualidade pessoal de comunhão com o nosso Salvador, de forma que sejamos empurrados à solidariedade cristã para com os nossos irmãos igualmente crucificados.

fonte: Arquidiocese de Ribeirão Preto, escrita pelo padre Círio Alessandro Jacinto

 


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