Martírio de São João Batista

Martírio de São João Batista

“João Batista é o precursor de Jesus até no mistério do martírio”

 

A figura ímpar de João, o batizador, deveria sempre nos impressionar nos relatos evangélicos, sobretudo porque a nenhuma outra pessoa Jesus sentiu-se tão atraído e admirado, quanto pelo Batista, a ponto de declarar explicitamente que, dentre os nascidos de mulher, nenhum outro ser humano é maior do que João Batista (Cf. Mt 11,11). Até mesmo pelo fato que, ao encontra-lo nas margens do Jordão, quando se deixou batizar, Jesus assimila à sua própria missão, a pregação de João no deserto.

 A vocação confiada ao Precursor do Messias foi sempre aquela, conforme a profecia, de preparar as estradas, nivelar os montes, abrir os caminhos, para que o ungido de Deus pudesse alcançar o coração dos homens. Essa vocação, porém, não poderia ser vivida de qualquer maneira, era preciso sobretudo sentir-se profeta e enviado da parte do Senhor e, quando olhamos para a história de João, filho de Zacarias com Izabel, percebemos essa convicção sempre presente.

João, por ser filho do sacerdote Zacarias, era de linhagem sacerdotal, isto é, tinha por incumbência hereditária servir o santuário do Senhor nas funções sacerdotais, porém sem que saibamos o real motivo, num determinado momento o Batista deixa o Templo, os ritos, a Escritura proclamada na grande assembleia e refugia-se no deserto, assumindo caráter profético, denunciando tudo o quanto desfigurava a humanidade do povo.

Nesse sentido, as duas grandes forças que impulsionavam a vocação de João eram sobretudo: a pregação contra o pecado e a evidenciação da rebeldia de Israel contra o seu Deus. Assim, alertava o povo, chamando-o incessantemente à conversão: “o machado está posto na raiz” Lc 3,9. O povo precisava, segundo ele, de uma espécie de purificação total, integral, daí o rito de Batizar com água, significando esse banho que chama à conversão.

Atraindo o povo para um lugar “longe” do Templo, lugar da centralidade do poder econômico-religioso, fonte de comércio e de riquezas, os poderosos se incomodam e precisam dar um jeito de reverter essa situação. Com sua incidência profética, João ainda denuncia as imoralidades que repousavam sobre a casa de Herodes.  Com isso, é conduzido à condenação e ao martírio, pois Herodiades, tendo agradado o Rei, pediu a cabeça de João numa bandeja.

O mais profundo do martírio de São João é que, mesmo a ameaça de morte não foi suficiente para calar a sua voz e faze-la retroceder. João era tão fiel ao Reino do Cordeiro de Deus, que levou até as ultimas consequências sua pregação em favor do arrependimento, do perdão dos pecados e da coerência de conduta para que se pertença, de fato, a Cristo.

João Batista, último dos profetas da primeira aliança, regou com o próprio sangue o caminho por onde Jesus haveria de passar, mas não desanimou porque entendia que sua missão não poderia sem em vão. Em nossa vida de batizados, sobretudo os leigos e leigas, somos sempre convidados a pensar em nossa participação ativa em favor do Reino, mantendo-nos unidos a Cristo haja o que houver.

Assim, a vocação que recebemos, rumo à santidade, será de fato assumida e entendida por todos nós, não para fugirmos do escândalo da cruz, mas para que assimilemos nossa história a Dele, vivendo nossa vocação humana e divina: encontrar Cristo e responder a ele, até o fim!

Pe. Alexandre Canella Sanches
Vigário Paroquial